segunda-feira, 21 de setembro de 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009



sexta-feira, 11 de setembro de 2009





quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Crisis de criatividade, tomado da Revista da Cultura





Do grego krísis, “ação ou faculdade de distinguir, ação de escolher, decidir, julgar”, do verbo krínó, “separar, decidir, distinguir, discernir”, segundo o dicionário Houaiss, o significado da palavra “crise” já traz em si um verdadeiro turbilhão de sentidos e sentimentos. Crise econômica, global, existencial, social, crise no senado, crises das mais variadas que assolam países e populações. Mudam o rumo das coisas e nós vamos nos adaptando.

Existem ainda aquelas crises pessoais que nos paralisam, embotam nosso raciocínio e nossa produção. Para os artistas, essa crise pode vir em forma de ausência temporária de criatividade. Não há quem não tenha lido ou escutado falar sobre um compositor, cineasta, escritor, teatrólogo ou artista plástico que, sem muita explicação, deixa de lado seus trabalhos para vivenciar a fundo tal situação.

É quando uma palavra teima em não ser encontrada, uma nota se esconde na escala musical ou um traço cisma em ficar como ele bem entende que o fantasma da crise de criatividade pode aparecer. Para o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, ganhador do Prêmio Jabuti em 2008 por seu romance
O menino que vendia palavras, a crise é um fato. “Você não cria o tempo inteiro, não está sempre com uma excelente disposição, não tem sempre inspiração e chega um momento em que dá o branco, em que dá o bloqueio e você fica sem saber pra onde ir”, explica. “Isso não é normal, nem frequente, mas acontece com muitos.”

O processo de criação não é fácil e não há como imaginar um artista que crie em tempo integral. Roger Bassetto, artista plástico, criador da livraria e galeria de arte Pop, concorda com Loyola. “Existem períodos menos fluentes e existe a ‘resistência’, que é a inimiga da criatividade. É uma força negativa que faz a gente adiar o trabalho criativo, e é tão forte que o escritor Steven Pressfield escreveu um livro conceituando o assunto chamado
A guerra da arte - supere os bloqueios e vença (esgotado).” Na opinião de Marcelino Freire, autor, entre outros, do livro Contos negreiros, vencedor do Jabuti em 2006, a crise existe a toda hora. “É um vazio, um vácuo, e isso acontece, geralmente, quando a gente acaba de publicar um livro. Aí dá uma crise pós-parto.” Para ele, os personagens deixam saudade e falta força para se segurar em pé. “Dá um certo branco na página”, diz. Os gatilhos são variados, mas a própria cobrança, os prazos, os compromissos com patrocinadores podem gerar uma ansiedade que acaba por inibir a criação. Por outro lado, como diz a máxima de Jean-Paul Sartre, “a necessidade é a mãe das artes, mas também a avó dos vícios.” Ugo Giorgetti, cineasta, diretor de Festa, Sábado, Boleiros 1 e 2 e do documentário Pizza, é possível que essa crise exista, mas ela diminui consideravelmente se você vive do que faz. “Se você precisa, por exemplo, escrever ou filmar para ganhar o próprio sustento, à medida que se aproxima o fim do mês e o momento de pagar as contas, a crise vai passando.” Ugo se considera em crise permanente. “O gatilho que a impulsiona é acionado, entre outras coisas, logo cedo, com a leitura dos jornais matinais, mas ela dura pouco. ”, diz o cineasta.

Para muitos artistas, uma crise constante convive em harmonia com a criatividade. É como se ela fizesse parte do processo. Edith Derdyk, artista plástica com exposições no Brasil e no exterior, autora de livros como
Linha de horizonte: por uma poética do ato da criação (esgotado), e do infantil O colecionador de palavras, entre outros, é um exemplo de que a criatividade e a crise andam sempre de mãos dadas. “É como a vida e a morte – a gente não consegue pensar na vida sem pensar na morte, e assim também acontece quando vivo o trabalho”, explica. “Compreendo a crise como a troca de pele, como a morte de um trabalho já feito, já conhecido, já experimentado ão se sabe como será!”

Ugo Giorgetti acredita que o processo de criação é sempre uma consequência das diversas crises que vamos experimentando ao longo da vida. “Na realidade, as crises não impedem a criação, ao contrário, alimentam. Toda a criação se ergue como reação a crises das mais variadas espécies.” E lembra: “As obras mais importantes são as que foram construídas contra alguma coisa”.

COMPOSITOR DE DESTINOS
A ideia de que os criativos vivem em crise não pode ser nunca confundida com achaques de prima-donas. A criação tem seu tempo, sua gestação, como diz o compositor Jean Garfunkel, autor de sucessos conhecidos nas vozes de Elis Regina
(Calcanhar-de-aquiles), Maria Rita(Não vale a pena), e Zizi Possi (Gato gaiato), entre outros. “Às vezes, a coisa emperra um pouco, mas acho que faz parte da ‘gestação’, o fundamental é se divertir durante o processo”, diz Jean. “A criança é sempre criativa quando está brincando. Paulo Garfunkel, meu irmão e parceiro, diz que compor é que nem sair pra pescar: ‘Jogue a linha em água turva, fique atento e sossegado. Vai pescar botina suja. Vai pescar peixe dourado.’”

E é o tempo o senhor da criação! “Tempo, tempo, tempo, tempo, compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”, como diz Caetano Veloso em sua Oração ao tempo. O psiquiatra e escritor Contardo Calligaris acredita que qualquer tipo de trabalho criativo tem um tempo próprio. “O problema de onde talvez surja a ideia da crise de criação é que nós todos somos muito pouco tolerantes com os tempos próprios dos projetos que nós temos”, explica. “A intolerância com o tempo pedido por uma criação é o que toma, por um lado, o aspecto de uma crise de criação, e por outro, produz realmente uma crise criativa e, se você tenta se brutalizar ou brutalizar o tempo necessário para aquela criação, você vai efetivamente bater numa parede.” Como disse Caetano, “tempo, tempo, tempo, tempo, entro num acordo contigo.”

Ao escrever um monólogo para o teatro, Calligaris passou por uma experiência muito interessante sobre o tempo das coisas. “Passei sete ou oito meses tomando notas sobre coisas que eu pensava e escrevi o texto de um sábado, às 10 horas, a um domingo, ao meio-dia, à força de cafeína”, conta divertido. “O monólogo era uma coisa falada por um personagem, numa noite de reflexão. Foi a temporalidade própria da criação. Se tivesse tentado escrever isso em retalhos de tempo, provavelmente nunca teria saído”, conclui.

O tempo do processo de criação não é igual ao da produção de um trabalho, diz Edith Derdyk, que acredita que essa ideia de “ter de produzir” está vinculada a uma visão de mercado. “Existe uma produção imaterial, mental, conceitual, que sempre está se fazendo sem se fazer visivelmente, ou seja, existe uma outra experiência de tempo embutida no processo de criação que nem sempre coincide com uma necessidade obrigatória de visibilidade e rapidez.”

Calligaris diz ainda que o tempo que a criação exige é semelhante ao da culinária. “É como na cozinha, existem massas que precisam descansar e, se você não faz isso, o prato não sai, mas há outras que você precisa começar e terminar, como a maionese, por exemplo”, compara. “Acho que cada criação tem o tempo próprio, pode ter o tempo da maionese ou pode precisar descansar, como a massa.”

O psiquiatra sugere que se pare e retome em outro momento. “Quem sabe fazendo outra coisa, quem sabe se deixando livre para pensar”, explica. Marcelino vai nessa direção. “Não gosto muito de ficar adulando um texto, prefiro me distanciar dele”, conta o escritor. “Deixo a coisa cozinhar um pouco, jogo o conto no esquecimento, até lembrar de novo dele.” E complementa: “É bom deixar o vulcão adormecer um pouco, uma hora a coisa explode”.

IMPASSES DA CRIAÇÃO
Como disse Bernard Shaw, “a ansiedade e o medo envenenam o corpo e o espírito”. Se não se respeita o tempo da criação, a ansiedade pode acabar com ela. Noites mal-dormidas, culpa e desespero se fazem presentes e aí a coisa desanda, paralisa. É a crise de criatividade gerada pelo próprio processo de criação. “Antigamente, eu ficava muito ansioso, muito preocupado, ficava tentando ver o que ia fazer, até o momento que falei: ‘relaxa’”, diz Ignácio de Loyola. “Enquanto você fica ansioso, acaba não encontrando solução nenhuma, ou encontrando soluções ruins ou ainda ficando cada vez mais bloqueado.” Para o escritor, a falta de solução para o problema de um texto, roteiro ou letra de música prende e paralisa. “A ansiedade, às vezes, é criativa, mas não nesse caso.” Loyola lembra de Federico Fellini: “A coisa mais genial que conheço sobre uma crise se chama
8 e 1/2, do Fellini, é um diretor que não consegue átudo pronto e o filme não sai”.

Marcelino Freire precisa de paz para criar. “Não consigo criar se estou encurralado, triste demais, cabisbaixo... Fico pensando na crise, envolvido por ela, e não faço nadica de nada.” Opinião compartilhada por Jean Garfunkel. “A crise está ligada ao momento histórico do criador, de baixa ou alta autoestima, e o seu grau de expectativa de desempenho diante do desafio criativo proposto”, explica o compositor. “O processo criativo envolve um risco. O cara tem que se sentir confiante pra poder brincar, experimentar e errar sem medo do ridículo.”

Nesse sentido, Calligaris ilustra com Freud. “Ele dizia que toda inibição, de qualquer tipo, é produzida por um excesso de erotização, ou seja, quanto mais a gente investe, digamos assim, energia, desejo em alguma coisa, tanto mais é fácil encontrar uma inibição.” E exemplifica: “Quando você acha um encontro importantíssimo, decisivo e pensa naquilo todos os dias, é muito provável que, primeiro, você se atrase, segundo, uma vez sentado à mesa, consiga derrubar um copo de vinho na pessoa com quem você está, e tudo vai acontecer exatamente porque você erotizou demais, investiu totalmente naquilo e isso acontece na criação sob forma de inibição criativa, de crise”, conclui o psiquiatra.

EXCESSO DE INFORMAÇÃO
A internet revolucionou hábitos, profissões, informações, encontros, revolucionou até mesmo o tempo de algumas coisas. Há de tudo no mundo virtual, mas não é só ali. Livros, filmes, peças teatrais, revistas, quadrinhos, jornais... Sem falar na TV! Todos os dias, somos bombardeados com lançamentos e novidades, por vezes bastante duvidosos. Esse número absurdo de informações que chega até nós pelos diferentes meios de comunicação pode nos trazer a sensação de que tudo já foi feito, mas a verdade não é bem assim. “Se você começa a pensar dessa forma, não cria mais nada”, diz Loyola. “Você tem que pensar em criar, e não pensar o tempo inteiro em revolucionar a arte, tem que pensar que tem alguma coisa para dizer e que deve dizer.”

O “como” dizer é o que importa para Edith Derdyk. Para ela, essa é a grande questão da arte. “Se tudo já foi feito, escrito, retratado, ‘como’ foi feito, ‘como’ foi retratado?”, questiona. “As histórias podem ser sempre as mesmas, o que as diferencia é o ‘como’ elas são contadas, ou recontadas.”Mas não é o excesso de informação que pode levar os artistas a viver uma crise de criatividade. Quando eles têm algo a dizer, mergulham nas águas mais profundas e nem sempre calmas da alma e ali encontram sua paz ou sua crise para iniciar a criação.

Marcelino Freire diz não acreditar que esse bombardeio de informações atrapalhe sua criação. “a possível ‘paralisia’ tem mais a ver com a alma – na hora em que ela encalha , teima, silencia; na hora em que não encontra expressão, o grito certeiro na goela.” ugo Giorgetti concorda: “o sem-número de informações que nos chegam não atrapalham porque são, em número esmagador, falsas informações, quando não perfeitas idiotices”, diz o cineasta. “não costumo pensar nessas coisas, não”, diz o compositor Jean Garfunkel sobre o massacre informativo. “acho que a informação que realmente interessa é aquela que te atinge profundamente, é aquilo que emociona ou que te faz dar risadas, não aquilo que te irrita.”

TUDO A SEU TEMPO
“Meu, relaxa!” esse é o conselho do Calligaris psiquiatra para o Calligaris escritor quando a coisa empaca. Para ele, o tempo do relaxamento é tão útil quanto o tempo que passa escrevendo. “tirei férias para avançar no meu segundo romance, sai vinte dias para escrever. durante os primeiros oito dias, não escrevi nada. não sei por quê, mas não estava a fim, e não só não me desesperei como fiquei absolutamente leve, fiquei ao lado da piscina, li uns sete romances, comi bastante foie gras e a partir do oitavo, nono dia, comecei a escrever”, conta.

Não há receitas, conselhos nem formatos certos ou errados para que o processo de criação caminhe com a desenvoltura desejada. o silêncio, o distanciamento, o relaxamento – e, por que não dizer, uma cerveja com os amigos – podem ser muito mais importantes. Às vezes, como diz Marcelino, só bebendo. “Quando estanco, vou à cerveja, vou encontrar os amigos e, entre um gole e outro, uma frase vem, distraída. aí, eu guardo a frase no juízo. Volto para casa e ao texto e, na maioria das vezes, a coisa se oxigena, caminha naturalmente.” roger bassetto aconselha mandar a crise passear. “o principal é saber conviver com ela, é pegar a crise e levá-la para tomar um Jack daniel’s”, diz o artista plástico.

Ignácio de Loyola Brandão foi mais fundo e chegou a parar de escrever por um tempo. “eu identifiquei um período de crise, em meados dos anos 80, em que decidi que ia parar de escrever, parar de fazer tudo, ‘pronto, acabou, não tem mais caminho’”, pensava o escritor. “Isso foi seguido por um período de depressão, em 1985, 86, e aí passou, passou por si, não procurei ninguém e, quando percebi, já estava retomando meu ritmo, e retomar o próprio trabalho foi normal, gostoso.” o escritor acredita que, para sair de uma crise, o importante é deixar correr. “a única coisa a fazer é ficar quieto, deixá-la ir, porque ela tem o tempo dela.”sem dúvida, parar um projeto, distanciar-se da criação pode trazer culpa, principalmente quando os prazos estão no limite. Mas há quem prefira produzir sob a pressão deles. “Para mim, funciona”, diz bassetto. “a crise é uma forma de pressão que pode chegar ao desespero, mas, se for canalizada para a produção, pode ser estimulante”, conclui.



CLASSICAL BEAT FEEVER

Mas, lembre-se sempre, o processo de criação não pode ser uma cruz. ao contrário, ele precisa ser divertido, deixar saudade. Como diz Jean Garfunkel, “a gente tem que se divertir e não se levar tão a sério. a inspiração, ou como se queira chamá-la, não suporta o mau humor”. É isso, respeitar o tempo das coisas e não esquecer nunca do lado bem-humorado da vida e da criação. esse é o grande segredo para afastar-se do fantasma da crise de criatividade, se não para sempre, pelo menos para distraí-lo enquanto concebe seu trabalho.


Muitas são as histórias mostradas em livros, discos, filmes e peças de teatro sobre a temida crise de criatividade. No cinema, não faltam exemplos. Em Adaptação (esgotado), de Spike Jonze e roteiro de Charlie Kaufman, um roteirista, o próprio Charlie, vivido por Nicolas Cage, é contratado para escrever um livro de uma jornalista (Meryl Streep) sobre orquídeas. o livro conta a história de John Laroche (Chris Cooper), um fornecedor de plantas que clona orquídeas raras para vendê-las a colecionadores. Sem inspiração para fazer a adaptação do livro para o cinema, Charlie resolve fazer um filme sobre um roteirista que não consegue adaptar um livro para um filme, usando o livro dela como base. Janela secreta (esgotado), de David Koepp, baseado no conto Meia- Noite e Dois Minutos: Janela Secreta, Jardim Secreto, publicado em 1990 no livro Depois da meia-noite (esgotado), de Stephen King, conta a história do escritor Mort rainey (Johnny Depp) em plena crise pessoal e de criatividade. Depois de se separar de sua esposa, ele decide se isolar em uma cabana para escrever seu novo livro. Porém, surge em seu refúgio John Shooter (John Turturro), que o acusa seguidamente de plágio. Sua vida vira um inferno, e ele é ameaçado de morte, caso não reconheça que roubou a história de John. Mas o grande clássico do cinema sobre o assunto é o belíssimo 8 e 1/2, de Federico Fellini, com trilha musical assinada pelo compositor Nino rota. Marcello Mastroiani, em atuação fantástica, vive Guido Anselmi, um cineasta atormentado pelo próprio sucesso e por uma terrível crise de criatividade. o título do filme é uma referência à carreira do próprio diretor, que até então já havia dirigido seis longas-metragens, dois episódios de filme e havia codirigido um longa-metragem. Alter ego de Fellini, Anselmi não consegue terminar um filme por total falta de ideias. Buscando uma saída, o cineasta passa a recordar a infância, seu casamento em crise, o relacionamento com a amante e com a família. Um filme imperdível!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009